Vida o Obra de Arlindo Vicente


VIDA E OBRA DE
ARLINDO VICENTE
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Biografia
A prisão nos 'curros' do Aljube

Terminadas as eleições e concebidos os 25% de votos aos dois movimentos de oposição, então representados por Humberto Delgado, Arlindo Vicente voltou ao seu escritório, aos seus amigos, não deixando de tomar parte em acções cívicas, protestos, petições ao governo, queixas contra prepotências exercidas sobre os seus cliente.

Presidiu nesse e nos anos seguintes a comícios que tiveram lugar, em comemoração do 31 de Janeiro, no Coliseu do Porto, tendo sido, mais tarde, no ano de 1960, brutalmente agredido na cerimónia que, no cemitério do Prado Repouso, dessa cidade normalmente era dedicada ás vítimas desse histórico acontecimento.

Passados cerca de 3 anos após as eleições e na vésperas de eleições legislativas, Arlindo Vicente é preso em Setembro de 1961, quando se dirigia da sua habitação para o seu escritório, por volta das 9 horas da manhã. O célebre Chefe de Brigada Sílvio Mortágua, o agente Abílio Pires e outros funcionários da PIDE revistaram a sua casa durante três horas e, a seguir, o escritório, onde encontraram 'uns papéis' aí deixados por um agente duplo que, ao serviço da polícia, ali os colocara para o tentar incriminar.

'Depois, durante dezanove dias e dezanove noites permaneceu nos célebres 'curros', ou 'gavetas' de 2,00mx 0,75m e 3,50m, de pé direito, sem ar, com catre, um púcaro para água e um escarrador sobre um pequeno banco. De hora a hora, era-lhe perguntado, do exterior, se lá estava. Note-se que de acordo com o artigo 203, do Dec. 26 643 Reforma Prisional - as celas para isolamento têm de ter pelo menos 22m3. Ali, a sua almofada era a maleta onde levara escassa roupa. Ao fim de dezanove dias, adoeceu gravemente. De maneira quase imperceptível, durante uma visita, a primeira que lhe foi possibilitada, muitos dias após a sua detenção, avisou a família que, alertada, procurou saber o que se passava. Imediatamente foi arrastado para dentro e os seus familiares (mulher e filhos), com encontrões e safanões, postos na rua. Foi contactado o então director da PIDE, Homero de Matos, e o então Presidente do Conselho, Salazar. Procuraram-se médicos que o socorressem, mas curioso, alguns deles e um conhecido cardiologista, contactados, recusaram-se a assisti-lo com receio. Outros não tiveram medo de socorrer um doente: profs. Ducla Soares, Frederico Madeira e Arsénio Cordeiro. Mais tarde, esses 'curros', onde tantos portugueses padeceram, foram destruídos, tão afrontosos eram, e assim se apagou um vestígio ultrajante.'
(D.N., Ibidem)

Constatada a gravidade do seu estado de saúde, foi transferido para Caxias onde permaneceu três meses e meio em completo isolamento. Ao fim de três meses de detenção, sem culpa formada, foi procurado pelo Inspector da PIDE Gomes da Silva, então director dessa cadeia de Caxias, para que obtivesse dinheiro a fim de prestar caução, pois aguardaria em liberdade o julgamento. Mais uma manobra...

Em 3 de Janeiro, o processo baixou da PIDE dirigido ao segundo Juízo Criminal. Arlindo Vicente aguardou. O processo foi devolvido pelo então delegado, José Maria Vaz, que informou não haver matéria para incriminação, mas talvez fosse possível - aconselhava - indiciá-lo como 'perigoso'. E o processo foi remetido à PIDE, para continuação da instrução, de acordo com as directivas do delegado. Mais tarde, justificando-se, o então Inspector José Aurélio Boim Falcão exibiu a directiva emanada do Segundo Juízo Criminal, dizendo limitar-se a cumprir ordens.

Em Fevereiro de 1962, regressou o processo e foi então, indiciado como 'perigoso', somente porque cumpriu o mandato da Nação e fruíra dos direitos políticos que a Constituição lhe consentia.

Melhor e mais sugestiva será a transcrição de parte da carta que Arlindo Vicente, na situação de encarcerado dirige ao Juiz corregedor Dr. António de Almeida Moura, a propósito da sua prisão:

'(...) No dia 30 de setembro de 1961, um Sábado, seriam nove horas, dirigia-me ao meu escritório, desde a minha habitação, no 3.º andar n.o 32, da Avenida Manuel da Maia - Ainda não tinha feito um só dia de férias - para ultimar os trabalhos para o dia 1 de Outubro dado que no Domingo seguinte tencionava passá-lo numa propriedade que adquiri e tinha em obras (na Vialonga), quando me vi cercado por vários indivíduos que exibiam cartões. Disseram-me que eram da polícia e que estavam a organizar um processo e desejavam ouvir-me, mas, antes, queriam passar uma busca na minha habitação. Acompanhei-os ao 3.º andar e aí remexeram tudo e levaram alguns papéis. Seguidamente fomos para o escritório e aí, já se encontrava desde manhã, outro grupo, remexeram também e levaram alguns papéis, juntaram todos e fomos para a PIDE.
Pela tarde entrei no Aljube. Comecei a subir as escadas acompanhado de um guarda. Um outro, no patamar do 1.º andar, disse que não era para cima, que era para ali. Desci alguns degraus e fui conduzido a um corredor onde havia uma parede longa com uma série de portas, metro a metro. Claro que os guardas tinham ordens para me meter ali. Aberta uma das portas, deparei com outra porta e a seguir um buraco, nele um catre, coberto com uma serapilheira e duas mantas. Ao lado um escarrador sobre uma banqueta e um púcaro de alumínio para a água. O buraco não tinha luz. Esta vinha da parte exterior quando se abria a porta, o que acontecia para ir à retrete. O buraco mede quando muito um metro de largo. Ali me meteram. Os gavetões como são conhecidos dão uma angustiosa sensação de asfixia e desespero. Dos outros, de dezenas de gavetões, vinha uma contínua notícia pela tosse, noite e dia, de outros presos e os contínuos toques de campainha, de outras vítimas. A sensação de afronta humana é perfeitamente conseguida. Logo pedi um médico. Disseram-me que viria na 2.ª feira e veio. Quando lhe fui presente, queixei-me das instalações, da minha saúde e da idade para suportar aquilo. Não lhe falei claro, da minha inocência. Disse-me que não era com ele. Falei-lhe da minha dificuldade de respiração e dos meus pulmões, com várias crises anteriores; da minha arteriosclerose, da minha deformação nasal e da minha dificuldade de respirar. Pedi-lhe que me consentisse que a minha família me fornecesse uma almofada, para encostar a cabeça, pois até ali o fazia sobre o casaco e as calças dobradas. Não era com ele. Voltei para o buraco e nessa tarde queixei-me na Polícia, onde fui para rubricar os papéis mas disseram-me "ignorar como aquilo era". Lamentei que me prendessem sem ter um local humano onde me metessem. Pedi o nome do médico assistente. Retinham a minha correspondência, até a profissional. No dia 8 de Outubro senti-me mal. O médico não vinha. Eu não podia falar claramente à minha família e, onze dias depois de chamado, apareceu o médico. Eu tinha tido um enfarte de miocárdio. Procuraram ocultar-lhe o meu estado e a minha desgraça, quando eu não devia ignorá-lo e só por acaso o descobri. Não consegui que me fizessem oportunamente o tratamento específico da doença'.
(Carta, ibidem)

Texto de Dr. António Pedro Vicente