Vida o Obra de Arlindo Vicente


VIDA E OBRA DE
ARLINDO VICENTE
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Biografia
Os primeiros passos: do Liceu de Aveiro à Universidade de Coimbra

'É uma melancolia não me sentir realizado. É uma melancolia que resolvi não sentir mais. A única coisa que eu sempre quis realmente fazer foi pintura'.

Era assim que Arlindo Vicente sentia quando tinha 64 anos.

A paixão pela pintura e pela Arte acompanhara toda a sua vida e manifestara-se desde cedo. Começou a pintar por volta dos doze anos, sobretudo com aguarelas. Utilizava esta técnica por ser a mais barata e a mais fácil, segundo ele pensava. Já nesta altura as suas capacidades não passaram despercebidas ao seu professor primário, que o elogiava e o incitava a continuar. Mas foi mais tarde, enquanto aluno do Liceu de Aveiro que o seu gosto e a sua arte amadureceram. Estava no 3,º ano do Liceu quando o professor de Desenho lhe atribuiu a classificação de 20 valores pelo seu desenho de uma 'Vénus de Milo', em gesso, que servia de modelo, mas que ainda ninguém se atrevera a copiar. A partir daqui, a sua 'fama' chegou aos ouvidos do reitor que se apressou a fazer-lhe uma encomende - um grande retrato de Vasco da Gama, o patrono do Liceu fundado por José Estêvão.

Numa entrevista posterior Arlindo Vicente recorda este episódio que lhe valera o seu primeiro 'pagamento' - uns dias de feriado. Foi também para o Reitor e Latinista José Pereira Tavares, que A. Vicente ilustrou um livro escolar com 14 anos.

Eduardo Cerqueira, conhecido jornalista aveirense, seu colega de Liceu e grande amigo, também recorda esses tempos em que 'Arlindo Vicente ganhara entre condiscípulos e jovens amigos, e entre os próprios mestres um singular prestígio pelos seus natos predicados 'artísticos'.

Cerqueira também refere os tentames do pintor pelos domínios da escultura consubstanciados num busto de Camilo. Mas esta incursão na modelagem escultórica teria ficado por aqui pois 'não satisfez as intuitivas exigências estéticas do autor, que inutilizou a obra com manifesta mágoa minha'. De facto, esta parece ter sido a primeira e única vez que Arlindo Vicente enveredou pelos caminhos de uma arte que não a do desenho ou a pintura.

Foi sempre sobre uma tela, 'espaço' de duas dimensões, que o artista e sentiu a sua necessidade de criar. O carvão, o lápis, a tinta-da-china, a aguarela e o óleo foram os materiais utilizados para encher este 'espaço'. Mas nesta fase da sua vida é ainda o desenho que merece lugar de destaque como forma de expressão. A sua paixão estava definida. A Arte não mais deixaria de estar presente na vida de Arlindo Vicente, mas quisera o destino que a ela não pudesse dedicar totalmente.

'Quis ir para as Belas-Artes, mas o meu pai não deixou, não transigiu com isso. Sabia que era uma carreira para a fome. Matriculou-me em Medicina mas eu fugi no primeiro ano...'.

Um 'pai' no princípio do século, dificilmente permitiria que um filho seu fosse pintor. Depois do esforço económico que fizera para que os seu filho pudesse concluir o curso dos Liceus, não podia aprovar que em vez de 'Doutor', ele se tornasse 'pintor'. As condicionantes e restrições de ordem social e económica não davam espaço a que o futuro fosse decidido segundo vocações 'perigosas'. Este sentimento em relação ao Mundo das Artes perdurarias na sociedade portuguesa, como ilustra Almada quando em 1933 se dirige à plateia que o escuta na S.N.B.A.:

'A palavra mais desconsiderada hoje em Portugal é a palavra artista. Desconsiderada, desprestigiada, falida e posta fora de cena e da vida'.

Vedado o caminho para uma carreira artística, decide enveredar pelo Direito (depois de ter frequentado um ano de medicina). Faz o Curso entre Lisboa e Coimbra, mas o seu casamento com Adélia Marques de Araújo, estudante do último ano de Farmácia em Coimbra, faz com que seja aqui que decida concluí-lo.

É nesta época que organiza o 1.º salão de Arte dos estudantes da Universidade de Coimbra (1927). Os nomes presentes nesta sala da Associação académica são: Alfredo Osório de Souza Pinto; Arlindo Vicente, Carlos Campos Rocha, D. Diogo de Reriz, João Carlos, José Régio, José Santos Figueira, Manoel Serôdio e Paulo Rocha.

As obras apresentadas por Arlindo Vicente, num total de 16, já representam uma escolha que irá marcar toda a sua vida - o retrato. Entre os retratados, na sua maioria professores universitários, destaca-se o nome de João Carlos Celestino Gomes. Este médico, que quando assinava as suas telas, era apenas João Carlos, também participou na exposição. Ao seu lado, também merece destaque a presença de José Régio, aqui na sua faceta de pintor. É provável que a amizade entre Régio e A. Vicente, se tenha iniciado neste ano de1927, data do nascimento da Presença.

António Pedro visitara a exposição, e no dia 2 de Maior de 1927, escreve um artigo na A Ideia Nacional, onde relata o que por lá se via. Entre os nomes que ali expunham a sua obra, o de Arlindo Vicente não lhe foi indiferente:

"(...) o mais novo dos três, e o mais Poeta da pintura, de todos eles, muito macio nas cores que emprega, e o que é raro, sobretudo com vinte anos, conscienciosíssimo nos tipos que reproduz e estiliza e na forma de trabalhar".

Datam também desta época vários trabalhos de ilustração em revistas e livros. Destacamos as belas estampas que acompanham o texto de Eduardo Brazão Filho, e onde podemos apreciar a vida das gentes do mar ligadas à dor e à solidão. Servindo-se das potencialidades da tinta da china, o pintor constrói a forma através de linhas estilizadas e firmas. Os corpos alongam-se desproporcionalmente, mas atingem o equilíbrio da sua própria beleza. A paisagem que envolve as figuras, sempre presentes, pertence a um mundo irreal. O mar, as gaivotas e os barcos são despojados de tudo o que está a mais para formarem a linha da sua essência. Predomina um sentido decorativo à maneira da Arte Nova que faz dos lenços das varinas um lugar privilegiado para o pintor aplicar as suas formas.

Texto de Dra. Filipa Vicente