Vida o Obra de Arlindo Vicente


VIDA E OBRA DE
ARLINDO VICENTE
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Biografia
Arlindo Vicente ilustrador da Presença e retratista dos Presencistas

A 10 de Março de 1927 sai o primeiro número da revista Presença na cidade de Coimbra. Com maior ou menor regularidade, a revista foi saindo durante 13 anos, até Fevereiro de 1940, data em que deixará definitivamente de se publicar. Cobrindo todo este período modernista, a revista em seu torno alguns dos nomes mais importantes desta geração. Os directores e editores desta folha de arte e crítica foram Branquinho da Fonseca, João Gaspar Simões e José Régio. É este que, no primeiro número, assina o texto programático sob o nome de 'Literatura Viva'. Estão enunciadas as linhas de força orientadoras da revista que 'concedia autonomia ideológica aos seus colaboradores, oriundos das mais antagónicas orientações socio-políticas (...)'.

A publicação proclamou o primado absoluto da liberdade de criação, a independência da arte e da crítica em relação a qualquer outro poder, e a necessidade de uma expressão autêntica, sincera e original. Já no seu texto programático, Régio refere os 'dois vícios que inferiorizam grande parte da nossa literatura contemporânea, roubando-lhe esse carácter de invenção, criação e descoberta que faz grande a arte moderna. São eles: a falta de originalidade e a falte de sinceridade'.

São estes dois 'vícios' que os seus colaboradores vão tentar combater, outorgando à revista um carácter polivalente e multímodo, que pretende alargar os seus horizontes e os dos seus leitores. A diversidade de domínios culturais explorados (arte, cinema, música, filosofia, etc.) enriquece-a e torna-a uma referência fundamental para este período e um marco exemplar para as publicações que lhe são posteriores.

A expressão artística também não esteve ausente: os desenhos de Júlio (irmão de José régio), Almada, Eloy, Bernardo Marques e Arlindo Vicente, entre outros, ilustram a capa e o interior da publicação de Coimbra. Com efeito, é como ilustrador que encontramos Arlindo Vicente associado a tão importante veículo cultural. É no n.º 25, já em 1930, que o pintor inicia a sua colaboração, ilustrando a capa com um desenho de uma mulher nua a amamentar o seu filho. Dedicada a João Gaspar Simões, a imagem é de uma extrema simplicidade e ternura, facultada pelo envolvimento dos corpos de mãe e filho numa suave harmonia. Bem diferente é o tema que ilustra a capa do n.º 33. Nela encontramos um tema social, caricaturado de forma quase grotesca. Os contrastes presentes numa sociedade em que a miséria é muitas vezes subjugava um povo oprimido e necessitado, é exposto aqui sobre um monumento. Impera uma ironia e um 'ridicularizar' que caracterizará muitos dos seus desenhos, e também os de muitos dos seus contemporâneos. Também Júlio criaria um personagem grotesco e execrável, um burgês de feições deformadas e coberto dos mais diversos símbolos de riqueza, que se tornava ainda mais hediondo quando se aproveitava das 'mulheres da vida', símbolo da miséria humana e social.

Ao observarmos os desenhos da Presença, apercebemo-nos de como quase todos eles estão dedicados a outros colaboradores. As dedicatórias constituíam uma troca de simpatia, amizade e admiração mútua, que evidenciava os estreitos laços afectivos que uniam estes homens. Além de companheiros de trabalho, eram também companheiros de vida, unidos pelos mesmos interesses e paixões numa comunhão de ideias e sentimentos que a todos beneficiava.

A estreita amizade que unia Arlindo Vicente aos 'Presencistas', perduraria para além do desaparecimento da revista. Estas ligações ficariam fixadas para sempre nos retratos que o pintor realizou de alguns dos maiores nomes desta geração: José régio, Vitorino Nemésio, João Gaspar Simões, Adolfo Casais Monteiro, Adolfo Rocha (Miguel Torga) e Francisco Bugalho, entre outros. De uma elegância formal muito marcada, própria do Modernismo dos anos 30, estes desenhos procuram captar os seus 'objectos' na sua dimensão humana e psicológica. Se nalguns casos o traço é simplificado ao máximo, fazendo com que um mínimo de linhas descreva o retratado (caso do retrato de Adolfo Rocha), noutros a forma ganha volume e plasticidade através do uso das sombras (veja-se os retratos de Gaspar Simões e de Casais Monteiro). Por vezes o tratamento do corpo é remetido para um segundo plano e é na expressão facial que o artista mais se empenha, talvez por ser no olhar que mais se evidencia a 'alma' do retratado, aquilo que é próprio de cada um.

Vicente, numa entrevista posterior recorda a altura (no início dos anos 30), em que as obras estiveram expostas 'no 1.º andar da casa vendedora de móveis 'Amado' da rua França Borges, em Coimbra'. Mais tarde, estes retratos serviram para representar os 'homens da Presença', nos inúmeros livros e revistas que sobre eles se debruçaram.

Texto de Dra. Filipa Vicente