Vida o Obra de Arlindo Vicente


VIDA E OBRA DE
ARLINDO VICENTE
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    Arlindo Vicente ilustrador
    A transição para Lisboa
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ARLINDO VICENTE

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Biografia
A transição para Lisboa

A exposição dos Independentes, 1930

Eram 'independentes' porque 'olhavam para as coisas com os olhos que Deus lhes dera', e sem precisar de usar óculos 'académicos'. Estes artistas modernos independentes como se auto-denominavam, associaram-se episodicamente e levaram às salas da Casa Quintão, no n.º 32 da rua Ivens, uma exposição com 312 obras. As artes diversificaram-se, alargam os seus domínios para outros campos de criação. Ao lado de pintores, desenhadores, escultores e arquitectos, vemos surgir também fotógrafos, decoradores e cartazistas. O laço que os une é a crença nos valores do modernismo. Estes valores não são novos, mas têm já um passado e uma história que os legitima e sedimenta.

A exposição dos Independentes vem consolidar estes valores e dar uma possibilidade aos 'novos' que partindo das premissas já enunciadas, as reformulam e inovam.

A exposição que a precedera fora organizada em 1926 por José Pacheko que fora também director da Contemporânea. Era o 2.º salão de Outono que já se diferenciava das Exposições oficiais que também ocupavam as salas da Sociedade Nacional de Belas Artes. Com quatro anos de interregno, o panorama cultural português sofria agora um novo embate. Era o momento de se fazer o ponto da situação daquilo que tinham sido os anos 20 ao mesmo tempo que se promovia novos valores.

Um dos mais importantes responsáveis pelo acontecimento era uma personagem cuja intervenção teórica era cada vez mais evidente - António Pedro. Homem muito activo, sobretudo ao nível da crítica de arte, também se destacará como escritor, poeta, pintor, escultor e encenador, sendo um dos principais mentores do movimento surrealista em Portugal. A amizade que o unia com Arlindo Vicente já provinha dos tempos de Coimbra e agora em Lisboa, com vários projectos em comum, evolui para uma maior proximidade. Partilhavam uma admiração mútua que permanecia alheia a uma escolha de caminhos artísticos completamente distintos. António Pedro foi uma das pessoas mais retratadas pelo pintor, e foi, incluso, padrinho do seu filho mais novo a quem deu o nome.

Ao lado de pintores já consagrados como Almada, Mily Possoz, Barradas, Manta ou Dórdio Gomes, surgiam nomes como Eloy, Lino António, Sarah Afonso, Botelho, Júlio, Tagarro, Vieira da Silva e Arlindo Vicente.

Vicente expôs 16 obras, onde predominam os retratos. Tinha 24 anos e a crítica já o considerava um dos 'novos que são já grandes artistas'. Dizia A. Vasconcelos de Carvalho que 'Arlindo Vicente e António Duarte' eram 'duas revelações, dois poderosos criadores'. O crítico ainda afirmou que

'O 1.º Salão dos Independentes provou, irrefutavelmente também, que, ao contrário do que se faz crer, os novos sabem desenhar. Dois ou três exemplos apenas: Arlindo Vicente, José Tagarro, Jorge Barradas'.

É curiosa esta alusão ao 'saber desenhar', pois com certeza que uma das críticas mais frequentes entre os artistas académicos ou um público mais conservador era precisamente a de que os 'novos' não satisfaziam as exigências mais elementares das regras da composição visual. Era o 'velho preconceito' que o modernismo suscitou ao romper com as barreiras da 'perfeição' académica. Como afirma Diogo de Macedo no Catálogo desta posição

'A inquisição das artes foi a academia, e as suas fogueiras - que ainda algumas ardem - são os sistemas. Há que substituir os autos-de-fé por actos de fé'.

Os comentários dos artistas modernistas presentes no Catálogo são de uma extrema importância e ajudam-nos a compreender o que representou este movimento em Portugal. No texto programático da Presença, já José Régio proclamara que 'Em arte é vivo tudo o que é original. É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima duma personalidade artística.(...)'.

No catálogo da exposição da rua Ivens, Gaspar Simões enuncia a mesma ideia:

'Um artista é grande quando é ele próprio, e tanto maior quanto mais original, mais pura, mais virgem for a sua personalidade. O que exibir mais poderosa, natural e sinceramente estas qualidades será o mais modernista dos artistas'.

Chamamos a atenção para a palavra 'sinceridade', tão frequente nos textos desta geração de intelectuais e artistas. Em 1927, Régio considerava a falta de sinceridade como um dos vícios que inferiorizavam grande parte da literatura sua contemporânea. Sarah Afonso, no seu depoimento do catálogo da Exposição de 1930, também confessava que fazia 'por ser coerente e sincera'. Alguns anos depois o mesmo conceito encontra-se igualmente num artigo de Arlindo Vicente sobre a Arte Moderna. Referindo-se ao convencionalismo académico dos meados do século XIX, afirma que

'O mundo da arte tinha limitado o seu enriquecimento. Tudo era previsto e igual. Aquele mar morto teria necessariamente de ser sacudido. Havia que aniquilar todos os falsos conceitos e substituí-los por um único: o da Sinceridade. Esta, traduzida através da própria sensibilidade e inteligência, permite fazer a justaposição dos elementos formais sem nenhum preconceito, isto é, tão livre e espontaneamente como eles brotam (...)'.

Era assim que se exprimiam (verbalmente) estes artistas ligados ao 2.º movimento modernista, que se desenrolaria durante os anos 30 e 40.

Esta iniciativa repetiu-se em 1931, mas ficou-se por aí. O êxito obtido no ano anterior supunha uma continuidade, mas como o testemunham os jornais da época a afluência do público diminuíra substancialmente e o número de artistas 'novos' era muito reduzido. Arlindo Vicente também participou, maioritariamente com desenhos (10), e com duas pinturas. Entre os retratos destacam-se Vitorino Nemésio, Adolfo Rocha, Francisco Bugalho, Gaspar Simões e Régio, que já tinham expostos em Coimbra e que agora se exibiam aos visitantes da capital.

Só cinco anos mais tarde é que os principais artistas desta época voltavam a reunir-se, novamente na Casa Quintão. Em homenagem a Amadeo, Santa Rita, Sá-Carneiro e pessoa principais arautos do movimento modernista em Portugal, é aberta uma exposição de 'Artistas Modernos Independentes'. Estes 11 artistas (entre eles, Arlindo Vicente) apresentavam 49 obras, e faziam questão de se diferenciarem do 2.º salão de arte Moderna, ligado à iniciativa oficial de António Ferro. Apesar das muitas críticas que se fizeram ouvir, provenientes dos círculos mais conservadores, António Pedro considerou-a 'a melhor exposição moderna de conjunto que se realizou em Lisboa (...); a melhor e a mais moderna(...). mais moderna porque mais livre e diferenciada entre cada um, e mais homogénea em modernidade no seu todo'. Essa modernidade também se manifestava na diferença, e era isso que levava personagens de quadrantes tão distintos à prossecução de um mesmo objectivo.

Os mesmos nomes também tinham estado ligados à U.P., primeira galeria de arte organizada em Lisboa. Inaugurada em 33, e aberta até 36, este espaço também esteve nas mãos de António Pedro, que além de lhe dar vida, também lhe deu o nome - O Pedro (U.P.). Este, dispôs-se logo a assinar contratos com os seus companheiros para que fosse feita uma exposição anual e ali pusessem as suas obras à consignação. Vicente colaborou com o seu amigo, tal como o fizeram Botelho, Tom, Jorge Barradas, Abel Manta e outros. Nesta década de 30 e nas décadas que se seguiram, Arlindo Vicente também está representado em inúmeras revistas e jornais como a Vértice, Ler, Diário de Lisboa, República e Primeiro de Janeiro.

Advogado e pintor nos tempos livres

Durante a década de 30, Arlindo Vicente dedicara-se sobretudo às artes. Finalizado o curso de Direito em 32, arrumara os códigos por tempo indefinido. O direito nunca fora a sua vocação, e não era neste meio que tinha os seus amigos. Preferia as gentes das tertúlias, os cafés onde passava longas horas entre o fumo e as conversas infindáveis. Gaspar Simões recorda-se destes tempos em que Vicente ocultava a sua formação jurídica, como procurando esquecer algo que não tornava feliz. Quando já casado e com filhos se mudou definitivamente para Lisboa, a sua vida pouco mudou. Os desenhos e as tertúlias continuaram. Remontando aos anos 30, João Patrício descreve o 'Café Chiado', onde se reunia a juventude intelectual.

'Ali se juntavam os irmãos Tinoco, António Pedro, António Botto, João Villaret, (...) os escultores António Duarte e Martins Barata, (...) e o pintor Arlindo Vicente'.


O esforço de Arlindo Vicente em manter a sua actividade artística dificultou-lhe a via prática que exigia mais estabilidade material do que aquela que um pintor podia fornecer. O exercício da advocacia era encarado como um simples recurso, para este homem que se obstinava em persistir na sua vocação de artista. Mas as dificuldades que a guerra acarretou, fizeram com que, de mero recurso, passasse a ser uma profissão. Vicente recorda esses tempos difíceis:

'Até à guerra, também com a ajuda da minha mulher (farmacêutica), fui sobrevivendo - vendia, em grande parte, para a França. Barata, mas vendia-se...'.

Talvez venha daqui o amor do pintor em relação à França, onde viajava sempre que podia com a sua mulher e com amigos. Em Paris aproveitava o tempo para ir visitar os museus e as exposições temporárias que mostravam as obras dos modernistas que mais admirava - Cézanne, VanGogh, Renoir e Gaugin, e todos os outros. A forte influência da cultura francófona em Portugal era notória, não só no campo das artes, mas em todas as formas de expressão e pensamento e Vicente não lhe foi alheio. Contudo, era em Espanha que o pintor encontrava o período artístico que mais o fascinava - entre o século XVI e o génio de Goya. Mas Cézanne era o preferido do pintor, e nas suas obras está presente esta admiração. Quando um jornalista lhe pergunta se algum pintor lhe merece particular preferência, Vicente não hesita:

'O mais notável dos pintores modernos é, incontestavelmente, Paul Cézanne - o mais do seu temo e um dos maiores de todos os tempos, (...). Pode dizer-se que toda a arte moderna está fundamentada na sua obra'.

Talvez o seu sonho fosse ter uma "Aix-en-Provence", para onde se pudesse retirar. É que, como ele dizia, 'as artes plásticas exigem continuidade, 'ofício' e só nesse ofício nos descobrimos. O pintor tem de ter qualquer coisa, talvez mesmo muito, de operário'. E foi precisamente esta continuidade que o exercício da advocacia lhe impediu de levar a cabo. Constrangido como está a advogar com afinco, desvincula-se quase por completo da actividade artística. Esta interrupção de muitos anos prejudica consideravelmente a sua atribulada carreira de pintor. Mas mesmo assim, teima em não abandonar os pincéis e o pouco tempo livre que lhe sobra é dedicado à sua paixão. É obrigado a tornar-se, por um longo período de tempo num 'pintor de Domingos', mas não abandona o seu vício dos 'cafés'. Assim, entre 40e 60, tem os seus encontros marcadas na célebre tertúlia do Veneza, ao lado do escritor Ferreira de Castro.

Para sua amargura, a vida fez com que o atelier se tornasse um lugar de passagem, com estadias mais longas ou mais curtas, mas sempre transitórias. A vida exigira que tivesse outros espaços. No seu escritório da baixa Pombalina trabalhou durante quase trinta anos, interrompidos por algumas incursões pela vida política da Oposição.

Datam de Coimbra as suas preocupações de ordem política que iriam marcar toda a sua vida, por vezes com um rumos inesperado. Quando Arlindo Vicente chega a Coimbra, está Salazar a iniciar a sua vida política. Mas a sua memória, ainda está bem fresca na cidade e a antipatia que o pintor tem para com esta figura irá alargar-se aquele que foi o seu regime. Democrata, defensor dos direitos humanos e das liberdades individuais, desde cedo se opôs a um governo intolerante que não aceitava críticas ou oposições. Começou por 'incomodar' o regime com os seus desenhos de temas sociais, que lhe causaram os primeiros confrontos. O choque seria mais grave quando, enquanto advogado, enfrentou, os tribunais plenários na defesa de réus acusados de crimes contra a segurança do Estado. Mas os seus problemas começariam quando em 1958 surge como um dos candidatos à Presidência da República. Viria depois a desistir da sua candidatura a favor do General Humberto Delgado, para não dividir os votos da oposição democrática. Esta entrada na cena política e as suas posições assumidamente democráticas valeram-lhe a prisão. Fora o castigo para este menino mal comportado que se atrevera a enfrentar a paternalista figura de Salazar. Mas até aqui, e após muitos meses mais duros de encarceramento, os pincéis e os óleos estiveram presentes. E deste período datam alguns 'Retratos de companheiros de cadeia', talvez como forma de tratar o seu próprio sofrimento na expressão do outro e de assim o sublinhar.

Não nos cabe aqui desenvolver o percurso da sua vida como político, mas é necessário tê-lo presente para compreender alguns dos temas mais recorrentes ao longo da sua obra, assim como a sua própria forma de expressão. É que as suas preocupações sociais, a sua forte ligação ao povo, ao ser humano, além de se manifestarem em termos de ideologia política, também dão vida a todas as suas telas.

A Sociedade Nacional de Belas-Artes

Enquanto advogado, é escasso o tempo de que dispõe para se dedicar à artes, mas durante todos estes anos, Vicente nunca descurou as suas relações com esta instituição cultural. A história da Sociedade Nacional de Belas-Artes estará associada ao seu nome, na medida em que foi neste espaço que a sua obra mais se deu a conhecer.

No dia 3 de Julho de 1946, é aberta ao público a I exposição geral das artes Plásticas. Numa iniciativa que perdurará durante 10 anos (demonstrando que era possível dar continuidade a um projecto com estas características), exibem-se centenas de obras realizadas por artistas de diferentes gerações. Organizada pelos próprios expositores independentes, portanto de tudo o que não seja um forte empenho em favorecer a arte e o artista, este acontecimento anual soube promover as várias linguagens presentes nas artes plásticas. Cada ano as exibições eram enriquecidas com novos valores que contribuíam para a progressiva renovação do panorama artístico nacional. Alguns dos nomes presentes são: Abel Manta, Júlio Pomar, Lima de Freitas, Mário Dionísio, Nikias Skapinakis, Querubim Lapa, Lagoa Henriques, Maria Keil, etc...

Arquitectura, fotografia, artes decorativas, gravura e pintura eram algumas das expressões plásticas que tinham encontro marcado em Maio de cada ano. E era a este encontro que Arlindo Vicente quase nunca faltava (apenas não esteve presente em 54 e 55) . Com dois ou três quadros anuais, vai figurando no evento que passaria a ser um dos seus únicas vínculos com o mundo das artes.

Apesar da sua escassa produção durante esta altura, são perceptíveis algumas mudanças significativas. Progressivamente, a pintura vem substituir o desenho. Paulatinamente o seu traço firme e bem delineado vai-se diluindo na textura do óleo com que (pre)enchia as suas telas. Do carvão e do lápis passa para o óleo, e a matéria, o instrumento, vêm mudar a forma e a plasticidade do objecto. Mas apesar das diferenças desenho/pintura, o retrato estará sempre presente como um laço permanente e duradouro que une todas as formas de criar e toda a criação de formas. Nos olhos de um dos seus companheiros de vida artística ou nos olhos de uma das suas varinas (tema cada vez mais frequente), a busca é a mesma. É a procura do outro. A figura humana é o centro. Tudo o que o rodeia torna-se secundário e dependente de um eixo centrípeto para onde se dirige a pesquisa do artista.

Mas a sua actividade na Sociedade Nacional de Belas-Artes não se limita a expor de vez em quando mas desenvolve-se também pelo carinho que lhe merece a própria instituição, à qual dedicou muitas horas do seu tempo livre. Participa na elaboração dos estatutos da Sociedade colabora como membros dos júris das exposições que ali se realizam e chega a der vice-presidente da Assembleia Geral.

Arlindo Vicente esteve ainda associado às muitas vicissitudes políticas por que passou esta instituição entre os anos 40e 60. Por vezes davam-se rusgas policiais e o encerramento arbitrário das sedes de exposições levam-no a ter que defender a S.N.B.A. junto à autoridades enquanto advogado.

Texto de Dra. Filipa Vicente