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Vida o Obra de Arlindo Vicente |
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Biografia
Era assim que Arlindo Vicente se exprimia aquando da sua primeira exposição individual na S.N.B.A. Finalmente deixara o escritório para ocupar o Atelier. Tinha 64 anos e uma enorme vontade de 'cumprir o seu destino'. Ao olharmos para o catálogo da exposição de 1970, vemos que predominam os óleos. De facto, progressivamente, esta técnica ocupa um espaço cada vez maior nas pesquisas do artista. Nas 106 obras expostas, apenas 8 são desenhos e 24 são aguarelas. Nos óleos continua a predominar o retrato, mas surgem agora novos temas que estarão cada vez mais presentes. Como que num regresso às suas origens, às suas raízes, as gentes do povo tornam-se o ponto de partida para a criação. Varinas, pescadores, casamentos de aldeia, maternidade e família são alguns dos temas mais recorrentes nesta amostra. Aos retratos de gente com nome, junta-se uma galeria de homens e mulheres anónimos, documentos de vidas sem glória e sem história. Um povo ligado ao mar da região de Aveiro, é aquele que o pintor escolhe e aquele que conhece melhor. Entre os retratos identificados também predominam os das pessoas que lhe estão mais próximas - os seus amigos e a sua família. Apesar de neste certame estarem representadas várias naturezas mortas, o figurativo é a escolha da maioria das obras. Da sua pintura, Vicente afirma
Considera-se um retratista de seres humanos, de sentimentos de estados de alma e de uma época. Foge a rótulos e a enquadramentos em escolas ou estilos, definido-se como 'uma pessoa moderna, sem quaisquer extremismos estéticos'. No catálogo desta exposição figuram quatro nomes que comentam o conjunto das obras de Arlindo Vicente. O escritor Ferreira de Castro, António Valdemar, Álvaro Perdigão e Assis Esperança insistem na angústia e na esperança como as duas faces simultâneas da sua obra. Nela descobrem um reencontro com o quotidiano onde está expressa a autenticidade e a sinceridade do artista perante a Vida. Quatro anos depois, dá-se um novo reencontro entre pintor e o público. No dia 15 de Novembro de 1874, este 'auto-didacta', como se designava a si próprio, realiza a sua última exposição. Dois anos de trabalho em 76 quadros, onde a temática se assemelha à da exposição anterior. Sobre ela Ferreira de Castro escreve:
Mais uma vez, a presença de motivos populares, a alusão à vida e à luta dos camponeses, nas telas cheias de cor e de vida. Na rudez da expressão está patente uma certa ingenuidade, fiel aliás ao seu modo de sentir e ver o mundo que o rodeava. A matéria que cria a forma manifesta-se em pinceladas espessas e evidentes ao olho que as observa. As potencialidades do óleo são exploradas de forma a dar plasticidade e volume aos objectos pictóricos. O traço negro emoldura os volumes e limita os seus campos de cor. Vitor Serrão, então já um jovem historiador de arte e um bom observador, faz 'Algumas reflexões sobre a pintura de Arlindo Vicente', no jornal A Republica (27-11-1974), onde realça a fidelidade do artista ao expressionismo figurativo, considerando-o um 'pintor expressionista de intervenção social'. Plenas de ternura, as suas figuras são também tristes. As suas expressões de ontem, quase sempre, um sofrimento profundo embora, tranquilo e sereno. Talvez o pintor encontrasse nestes olhares a sua própria interioridade, formando assim uma síntese entre obra e o criador. Entretanto, em 1971 Arlindo Vicente encontrara um espaço adequado para a realização da sua obra, no Palácio dos Coruchéus. Adquirido pela Câmara Municipal de Lisboa, em 1945, junto a este edifício de Alvalade construíram-se 50 Ateliers disponíveis para os artistas plásticos que aqui se quisessem instalar. Anos antes, André Malraux inaugurara um espaço semelhante na cidade de Paris. E agora Lisboa seguirá finalmente o exemplo, como forma de estimular a criação e diminuir as carências sentidas pelos Artistas portugueses. Nesta altura, Arlindo Vicente dá uma série de interessantes entrevistas onde denuncia os problemas que afectam o país em termos culturais e propõe soluções. O homem que aqui encontramos é um homem preocupado com a falta de estímulos e incentivos para todas as formas de arte, que ele próprio sentira ao longo da sua vida. Louva a iniciativa do Palácio dos Coruchéus, mas lamenta que estas realizações apenas beneficiem um número ínfimo de lisboetas, e que não se façam sentir na maior parte do país. Proveniente da província, está consciente das dificuldades em implantar uma política fora de uma capital que sempre se caracterizou pela sue macrocefalia. Como solução sugere que
Propõe também, a criação de apoios para que os alunos das Províncias se pudessem deslocar às exposições lisboetas, e a realização de exposições itinerantes de forma a tomar mais acessível a cultura artística. Considera que
Acredita não só no incentivo à produção e aquisição de obras de arte, como também na sua conservação e defesa, como forma de tornar as pessoas mais felizes. É um homem idealista aquele que já velho encontramos a realizar o seu sonho. Mas às vezes o corpo não obedece ao espírito, e três anos depois da sua última exposição, Arlindo Vicente morria vítima de doença em 24 de Novembro de 1977. Mas a sua pessoa permanecia através da sua obra e da sua arte. Texto de Dra. Filipa Vicente
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