Vida o Obra de Arlindo Vicente


VIDA E OBRA DE
ARLINDO VICENTE
  Biografia
    Cronologia
    Os primeiros passos
    Arlindo Vicente ilustrador
    A transição para Lisboa
    As exposições individuais
    Entre direito e pintura
    Defensor dos presos
    Obrigado a oposição
    Um pacto firmado
    A prisão
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ARLINDO VICENTE

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Biografia
Entre o direito e a pintura

Em Lisboa, para onde Arlindo Vicente se deslocou nos finais dos anos 30, depois de ensaiar os primeiros passos como advogado em Anadia tentou prosseguir uma carreira artística.

Aqui com Maria Eloy, Arpad Szenes, vieira da Silva, Heinz Semke, António Pedro, Almada Negreiros, Diogo de Macedo, Tagarro e outros, expôs nas galerias UP e nos salões da Casa Quintão e foi organizador e expositor do 1.º salão de independentes. Simultaneamente colaborou n'alguns jornais, quer como ilustrador, caso da 1.ªa série de O Diabo quer como articulista, tendo deixado alguns artigos na República, Diário de Lisboa, Ler ,etc.

Em Lisboa, tentou, impor-se no campo artístico. Entretanto, surge António Ferro e, com ele, um novo tipo de acção cultural. Quase todos os seus companheiros aderem. Arlindo Vicente, por orgulho, sentido de independência, temperamento e, fundamentalmente, por não desejar aceitar favores do regime, recusa a protecção. Só lhe resta uma saída para prover ao sustento duma família que crescia - o exercício da advocacia como única via para a sobrevivência. No fim, era a profissão que escolheu ao formar-se em Direito.

A Segunda Grande Guerra aproximava-se:

'Continuei a minha vida. Passei algumas dificuldades, serena e orgulhosamente (...). Mas orgulho-me hoje de todas essas negativas e de poder olhar serenamente a minha consciência. Nasceram-me três filhos que baptizei onde me casei, na igreja de Sangalhos, terra natal de minha mulher. Eduquei-os modesta mais dignamente, até ao fim dos seus cursos superiores. Minha mulher ajudou-me sempre. Procurei libertá-la de maiores obrigações, através de uma vida de trabalho brutal. Não tive lugares públicos. os de concurso de provas públicas eram adiados sine die quando concorri; eram sempre preenchidos por pessoas mais bem relacionadas do que eu. No entanto, não guardo reservas. Compreendi e perdoei. Passei privações, talvez, mas meus filhos nunca as passaram. Sempre ganhei a vida com honra. Fui sempre um homem livre. Abri escritório quatro vezes, sozinho. Mas quando chegou a hora, comecei a minha profissão em cheio, para todos, ricos e pobres com ou sem dinheiro, bastando que eu me convencesse que tinham razão. Vão lá muitos anos de excessivo trabalho que deixaram rasto profundo e inimigos implacáveis.'

Conhecido então nos meios artísticos onde angariou projecção como pintor, foi obrigado a prover ao seu sustento numa profissão liberal de várias tentativas goradas de se impor como pintor sem aderir ao compadrio do S.P.N. e de se negar a ser 'protegido' por António Ferro, como a maior parte dos seus companheiros de actividade artística.

Os anos 40 e parte dos 50 passou-os, assim, Arlindo Vicente, ocupando-se fundamentalmente, da sua profissão de advogado. Não descurou, contudo, apesar das características absorventes do seu trabalho, o convívio intelectual com os amigos que, entretanto, fizera em Lisboa, bem como as suas actividades artísticas. Estas exerciam-se, quer em postos directivos na Sociedade Nacional de Belas Artes (S.N.B.A.), quer colaborando, anualmente, nas exposições que, no decorrer, deste período, aí se realizavam. Esses salões de arte plásticas, concorrendo com os organizadores pelo Secretariado Nacional de Informação (SNI), trouxeram-lhe vários dissabores. São conhecidas as perseguições que, amiúde, eram exercidas pelas forças policiais, aquando de exposições que patenteavam obras de autores não afectos ao regime. Imagens eventualmente chocantes aos olhos da censura levavam a apreensão de quadros e portas seladas. Interrogatórios policiais e detenções eram preço corrente pago por alguns dirigentes e artistas que na S.N.B.A. apresentavam as suas obras.

Continuou, assim, Arlindo Vicente, a desenhar e a pintar, aproveitando curtos intervalos da sua árdua profissão. Tornou-se, por algumas décadas, um 'pintor de Domingo' não deixando, no entanto, de anualmente, concorrer às 'Exposições Gerais de Artes Plásticas', com duas ou três obras da sua autoria.

Mais tarde, já na década de 70, requereu a sua reforma à Ordem dos Advogados e, nos seus últimos anos de existência, voltou à pintura em exclusividade conseguindo, assim, fazer duas exposições individuais no Salão Nobre da Sociedade Nacional de Belas artes. Apresentou em cada certame, mais de uma centena de óleos (1970 e 1974). Também, durante o período decorrente entre os finais dos anos 30 e 1960, foi frequentador de duas importantes Tertúlias literárias da época. A do Café Chiado:

'Lá estava a coqueluche dos novos intelectuais de então (...). Ali se juntavam os irmãos Tinoco (o mais velho, António, fundador em 1945 do Diário Popular e entusiasta partidário de Rolão Preto (...), António Pedro, António Botto e João Villaret, o jornalista José Augusto, que iria viver em Paris, os escultores António Duarte e Martins Barata, o talentoso e apagado Luís Areosa, falecido cedo, o caricaturista (ainda hoje o show de talento caricatural do Diário Popular com o seu 'Riso Amarelo' penso que desde a fundação deste vespertino) José de Lemos e, entre muitos mais, o brilhante pintor e, mais tarde, conceituado advogado, Arlindo Vicente que, em 1958, na campanha para Belém de Américo Tomás, se candidatou, ou o candidataram pela oposição ao Estado Novo. Fiquei um pouco surpreendido ao tempo, pois julgava-o apolítico, embora conhecesse a sua aversão, mais de índole de antipatia pessoal contra Salazar. Homem digno de carácter, sempre senti por ele a mais sincera atracção espiritual e moral. Acompanhei, na altura, com natural interesse a campanha durante a qual aparecia a 'vedeta' turbulenta de Humberto delgado. (...) levando Arlindo Vicente a afastar-se , humilde e discretamente para lhe dar a 'alternativa'. Estava assim criado o caso delgado'.
(João Patrício 'O meu amigo Arlindo Vicente e o passado que ficou', Correio da Manhã, 20.10.90).

Os nomes, citados in João Patrício, patenteiam a diversidade, ideológica e moral, dos componentes desta tertúlia onde Arlindo Vicente se inseriu, e constituem clara referência sobre o seu tipo de convívio. 'As ideologias não devem separar os amigos' - regra por si consagrada e seguida em toda a sua existência.

Mais tarde, durante os anos 50/60, frequenta outra Tertúlia - a do Café 'Veneza' na Avenida da Liberdade. Aí pontificavam Ferreira de Castro, João de Barros, Joaquim Manso, Álvaro Salema, Câmara Reis, Assis Esperança, Roberto Nobre, Mário Domingues, Julião Quintinha, Augusto Casimiro e tantos outros por quem Arlindo Vicente sempre manifestou o maior apreço. Dessa Tertúlia ficou o que foi talvez o seu maior amigo de sempre, o escritor Ferreira de Castro.

Texto de Dr. António Pedro Vicente