Vida o Obra de Arlindo Vicente


VIDA E OBRA DE
ARLINDO VICENTE
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Biografia
Um pacto firmado consolida boas relações com Humberto Delgado

É normal que se encontrem divergências ideológicas entre os dois candidatos. Formações diversas, passadas em absoluta oposição política, assim o determinaria. No entanto, pondo de lado possíveis dissenções havia, dadas as circunstâncias, que tentar, a criação de um clima de unidade.

Alindo Vicente não hesitou na sua abdicação da promessa de chegar às urnas e resolveu, ouvidos os seus companheiros de luta, estabelecer negociações que levaram à assinatura de um 'Pacto' pelo qual se determinava que 'as candidaturas passariam a trabalhar em conjunto e seriam representadas nas urnas pelo general Humberto Delgado, obrigando-se este a tornar efectivo o exercício de voto'. As discussões para um entendimento tiveram lugar em Almada, no dia 30 de Maio de 1958. Nessa noite o mesmo foi, em casa de Humberto Delgado, reduzido a escrito e assinado. Na gíria situacionista esse acordo foi, ao mesmo tempo, descrito como o 'Pacto de Cacilhas'.

Vale a pena transcrever-se o que Arlindo Vicente afirmou sobre o assunto anos mais tarde:

'(...) as minhas relações com Humberto Delgado, até à minha candidatura, não existiam, pois eu, apesar das lutas e oposições determinadas desde Coimbra, só o conheci a partir da sua instalação na sede da sua candidatura na Avenida da Liberdade.
A partir desse momento, as minhas relações com o general foram sempre amistosas. Fizemos a campanha eleitoral separadamente comum objectivo comum: a instalação da democracia em Portugal.
Ocupados como andávamos na estruturação da nossa campanha para a qual tínhamos uns dias de pseudo liberdade, com prisões dos nossos principais apoios desde os primeiros dias, com ameaças constantes por parte de várias polícias, quase não tínhamos tempo para trocar impressões. Só com a aproximação da data das chamadas, na altura, eleições os nossos encontros se intensificavam, tendo em vista, fundamentalmente, um desejo de unidade para criação de maior força. De resto, é bem clara tal intenção no pacto firmado entre nós e Humberto Delgado. Essa necessidade de unidade acordada com o general Humberto Delgado também foi boicotada, pois se procurou evitar, a todo o custo, o encontro entre ambos. Inclusivamente, foi dada ordem à Polícia para me impedir de ir a Almada, local onde deveriam ser estabelecidas as discussões para o acordo. Efectivamente, mais tarde, um elemento da Polícia de Segurança Pública informou-me que essa instituição recebera ordem de obstar a esse encontro, o que, por circunstâncias, se não tornou efectivo. E foi assim, estruturada essa união que, na mesma noite e na casa de habitação do General Delgado, foi reduzida a escrito. Assim, entre a Oposição Democrática e a Oposição Independente, representada pelo general Humberto Delgado, foi estabelecida, por acordo de 30 de Maio de 1958, uma unidade de acção contra o Governo da ditadura. A partir daí, as candidaturas passariam a trabalhar em conjunto e seriam representadas nas urnas pelo general Humberto Delgado, obrigando-se este a tornar efectivo o exercício do voto.'
(D.N. ibidem)

A posição que neste caso tomou Arlindo Vicente demonstra de forma bem clara e com justeza a subordinação que a si próprio impôs, desprezando veleidades pessoais em honra de uma unidade de todas as sensibilidades políticas, tendo em vista o derrube da ditadura.

No acordo discutido em Almada e mais tarde firmado por ambos os candidatos, obriga-se Humberto Delgado, no caso de ser eleito a: criar as condições imediatas de aplicação do artigo 8.º da Constituição, a determinar o exercício de uma lei eleitoral honesta, a realizar eleições livres até um ano após a constituição do seu governo, a libertar os presos políticos e sociais e, finalmente, a iniciar medidas tendentes à democratização do país.

Arlindo Vicente, por sua vez, justifica junto dos apoiantes da sua candidatura a razão da atitude assumida. Em folheto que fez circular afirma os princípios que defendeu e continuará defendendo: 'concurso eleitoral até às urnas, não discriminação de raças, credos políticos e religiosos e unidade em torno de um programa democrático de governo'. Aí se explica a razão do seu apoio ao general Humberto Delgado. Efectivamente a conjuntura política nacional demonstra-lhe que essa candidatura

'mediante a assimilação dos princípios que nortearam os diversos movimentos de luta pela democracia no nosso país, pode pela dignidade, coragem e noção do dever, conduzir com êxito a coligação dos interesses que opõem ao supercapitalismo monopolista representado pela oligarquia salazarista, todas as camadas populacionais(...).'

Naturalmente um sector, aliás diminuto, dos aderentes ao candidato independente, principalmente aqueles que no seio da sua comissão de candidatura foram colhidos pela surpresa dessa união, afirmaram-se inicialmente descontentes com a possível adesão que daí poderia transparecer em relação ao Partido Comunista. Mal avisados estavam, no entanto, ao não se aperceberem que nas duas candidaturas se encontravam apoiantes de cariz diverso, de origens diferenciadas e de que ambos, simpatizantes seja do Partido Comunista seja de sectores moderados ou radicais de oposição pontificavam nas respectivas comissões executivas. Se se tiver em conta a existências de alguns nomes que então aí surgem mais nos certificamos que, três décadas após a imposição do regime, se diluíam contornos ideológicos num amplo consenso tendo em vista um fim comum - o derrube do estado Novo. Assim se explica a geral aceitação e concordância que obteve o Pacto firmado entre os dois candidatos oposicionistas.

Só a igreja parece ter ficado preocupada com essa unidade. Efectivamente, na véspera do acto eleitoral que teve lugar no dia 8 de Junho de 1958, foi publicado um folheto com tiragem de 50000 exemplares onde se transcreve um edital do periódico semanal A Voz do Pastor, órgão oficial da Diocese do Porto da qual era Bispo D. António Ferreira Gomes. Aí, sem indicações objectivas sobre em quem se deve votar, e em tom calmo, subtil e aconselhador, transparecem alguns 'avisos'. Um deles recorda o que Humberto Delgado escrevera anos atrás no seu A Pulhice do Homo Sapiens. Aí afirmara, efectivamente, não cultivar qualquer religião. N'outro cita afirmações nas quais Arlindo Vicente terá classificado a Concordata como 'fonte de imoralidade' e recusa a possível 'amesendamento' da Igreja ao Estado que, o mesmo candidato, teria afirmado. Cita, ainda, o seu congénere católico Correio de Coimbra onde um editorial elogiando a 'circunspecção' dos depoimentos oposicionistas afirma em dado momento: 'Só o Dr. Arlindo Vicente feriu os sentimentos católicos ao declarar o propósito de restaurar o divórcio'. O Folheto da Diocese do Porto utiliza os considerandos da Voz do Pastor para concluir: 'Se o Dr. Arlindo Vicente aderir ao general, desistindo, sobre este pesarão a ideologia e os propósitos daquele'.

Desde a data das eleições - 8 de Junho de 1958 - até à morte de Humberto Delgado, alguns encontros e contactos se estabeleceram entre ambos os políticos.

Arlindo Vicente afirmou a propósito de Humberto delgado:

'(...) Posteriormente, e no período que mediou até à sua saída do país, tivemos muitos encontros. Até ao fim da sua vida, mantivemos contactos estabelecidos com as dificuldades que são de calcular pelo facto de, tanto ele como eu, estarmos constantemente debaixo da alçada do olho vigilante da polícia. Logo que fui preso ele, então exilado, alertou o Governo Trabalhista Inglês, o Governo de Kennedy e o Governo Francês de De Gaulle, sobre a miséria e perigosa situação em que me encontrava.
Alertou, também, organismos internacionais de defesa das liberdades individuais. E por isso, aqui se deslocaram, aquando do meu julgamento, representantes do Parlamento Inglês e outros enviados de organismos perante a má vontade do célebre juiz Caldeira, o presidente do Plenário durante muitos anos, homem que se gabava de comunhão diária... Assim, tornou-se um escândalo internacional a minha prisão e tiveram de me deixar sair, mas, para justificar dez longos meses de aniquilante detenção, houve juízes que me condenaram. Ficou-me do general Humberto Delgado a imagem de um homem digno, obstinado e valente cuja vontade indomável de libertar este país da ditadura que, ele sabia, o destruiria, jamais foi desmentida. Ele odiava Salazar, a quem chamava o 'Torquemada português' e tinha até a grandeza de ter boa-fé e conviver lealmente com indivíduos que se vieram a revelar traidores e o levaram à morte. Humberto Delgado homem de uma só vontade e de um só parecer, lembro-me dele com o maior respeito pela sua memória. Há anos, logo que me foi possível, fui visitar, em Villanueve del Fresno, o seu túmulo. Ali depus os agora simbólicos cravos vermelhos. Não esqueço, jamais, que na véspera de se exilar e de fugir do seu país me foi procurar. Avisei-o, na minha casa, ao pé dum filho meu, que corria o risco de ser morto: assim foi! Queixava-se nesse dia, amargamente, de se sentir sozinho, de muitos que o apoiaram se afastarem dele, que estava à mercê da polícia e que poucos lhe valeriam'.
(D.N., Ibidem)

Texto de Dr. António Pedro Vicente