![]() |
Vida o Obra de Arlindo Vicente |
|
Biografia É normal que se encontrem divergências ideológicas entre os dois candidatos. Formações diversas, passadas em absoluta oposição política, assim o determinaria. No entanto, pondo de lado possíveis dissenções havia, dadas as circunstâncias, que tentar, a criação de um clima de unidade. Alindo Vicente não hesitou na sua abdicação da promessa de chegar às urnas e resolveu, ouvidos os seus companheiros de luta, estabelecer negociações que levaram à assinatura de um 'Pacto' pelo qual se determinava que 'as candidaturas passariam a trabalhar em conjunto e seriam representadas nas urnas pelo general Humberto Delgado, obrigando-se este a tornar efectivo o exercício de voto'. As discussões para um entendimento tiveram lugar em Almada, no dia 30 de Maio de 1958. Nessa noite o mesmo foi, em casa de Humberto Delgado, reduzido a escrito e assinado. Na gíria situacionista esse acordo foi, ao mesmo tempo, descrito como o 'Pacto de Cacilhas'. Vale a pena transcrever-se o que Arlindo Vicente afirmou sobre o assunto anos mais tarde:
A posição que neste caso tomou Arlindo Vicente demonstra de forma bem clara e com justeza a subordinação que a si próprio impôs, desprezando veleidades pessoais em honra de uma unidade de todas as sensibilidades políticas, tendo em vista o derrube da ditadura. No acordo discutido em Almada e mais tarde firmado por ambos os candidatos, obriga-se Humberto Delgado, no caso de ser eleito a: criar as condições imediatas de aplicação do artigo 8.º da Constituição, a determinar o exercício de uma lei eleitoral honesta, a realizar eleições livres até um ano após a constituição do seu governo, a libertar os presos políticos e sociais e, finalmente, a iniciar medidas tendentes à democratização do país. Arlindo Vicente, por sua vez, justifica junto dos apoiantes da sua candidatura a razão da atitude assumida. Em folheto que fez circular afirma os princípios que defendeu e continuará defendendo: 'concurso eleitoral até às urnas, não discriminação de raças, credos políticos e religiosos e unidade em torno de um programa democrático de governo'. Aí se explica a razão do seu apoio ao general Humberto Delgado. Efectivamente a conjuntura política nacional demonstra-lhe que essa candidatura
Naturalmente um sector, aliás diminuto, dos aderentes ao candidato independente, principalmente aqueles que no seio da sua comissão de candidatura foram colhidos pela surpresa dessa união, afirmaram-se inicialmente descontentes com a possível adesão que daí poderia transparecer em relação ao Partido Comunista. Mal avisados estavam, no entanto, ao não se aperceberem que nas duas candidaturas se encontravam apoiantes de cariz diverso, de origens diferenciadas e de que ambos, simpatizantes seja do Partido Comunista seja de sectores moderados ou radicais de oposição pontificavam nas respectivas comissões executivas. Se se tiver em conta a existências de alguns nomes que então aí surgem mais nos certificamos que, três décadas após a imposição do regime, se diluíam contornos ideológicos num amplo consenso tendo em vista um fim comum - o derrube do estado Novo. Assim se explica a geral aceitação e concordância que obteve o Pacto firmado entre os dois candidatos oposicionistas. Só a igreja parece ter ficado preocupada com essa unidade. Efectivamente, na véspera do acto eleitoral que teve lugar no dia 8 de Junho de 1958, foi publicado um folheto com tiragem de 50000 exemplares onde se transcreve um edital do periódico semanal A Voz do Pastor, órgão oficial da Diocese do Porto da qual era Bispo D. António Ferreira Gomes. Aí, sem indicações objectivas sobre em quem se deve votar, e em tom calmo, subtil e aconselhador, transparecem alguns 'avisos'. Um deles recorda o que Humberto Delgado escrevera anos atrás no seu A Pulhice do Homo Sapiens. Aí afirmara, efectivamente, não cultivar qualquer religião. N'outro cita afirmações nas quais Arlindo Vicente terá classificado a Concordata como 'fonte de imoralidade' e recusa a possível 'amesendamento' da Igreja ao Estado que, o mesmo candidato, teria afirmado. Cita, ainda, o seu congénere católico Correio de Coimbra onde um editorial elogiando a 'circunspecção' dos depoimentos oposicionistas afirma em dado momento: 'Só o Dr. Arlindo Vicente feriu os sentimentos católicos ao declarar o propósito de restaurar o divórcio'. O Folheto da Diocese do Porto utiliza os considerandos da Voz do Pastor para concluir: 'Se o Dr. Arlindo Vicente aderir ao general, desistindo, sobre este pesarão a ideologia e os propósitos daquele'. Desde a data das eleições - 8 de Junho de 1958 - até à morte de Humberto Delgado, alguns encontros e contactos se estabeleceram entre ambos os políticos. Arlindo Vicente afirmou a propósito de Humberto delgado:
Texto de Dr. António Pedro Vicente
|